A pessoa tem culpa por estar doente?

Tempos atrás, meu amigo Alexey Dodsworth escreveu um longo post no Face, sobre a abordagem esquizotérica (palavra dele) de quem tenta culpar alguém pelas suas doenças. Ou seja, você não apenas está doente, como isso representa um “traço negativo do seu caráter” – completava.

Tinha a ver com pessoas que não contam que têm câncer, porque gente próxima começa a especular em cima e isso aponta para defeitos seus que geraram aquela condição. Concordei com ele e aqui eu explico por quê.

Não é porque inexista uma ligação entre aspectos de nossas emoções ou hábitos mentais consolidados e a instalação de desequilíbrio no corpo físico. Mas é porque as pessoas frequentemente tratam assuntos muito complexos com excesso de simplificação.

Um dos livros de referência sobre o tema, Você Pode Curar Sua Vida, de Louise Hay, traz ao final uma tabela de doenças ou partes afetadas do organismo, seguidas de causa provável e proposta de adoção de novo padrão de pensamento – uma frase pra repetir -, que possa resultar em cura.

Bom, primeiro, imagino que a intenção da autora ao fazer essa tabela seria ajudar cada um a olhar pra si e, não, para diagnosticar os outros. Usar para os outros sem ser terapeuta ou algo similar, às vezes, é um jeito da nossa malícia e maledicência migrarem para o terreno da espiritualidade, porque é o que a nossa evolução, genericamente falando, permite: fugir de se ver e rebaixar o próximo.

Segundo, penso que uma lista desse tipo dá a impressão errada de que todas as otites são iguais, todas as rinites, todos os diabetes. E o engano está em isolar um órgão (ou um sintoma) do todo da pessoa, dentro de sua circunstância de vida, e atribuir a ela um buraco emocional ou deficiência moral, em função disso. Imagino que Louise pretendia que as pessoas lessem o livro todo, não se ativessem à tabela. Mas esse não é um hábito difundido nesses tempos de informação rápida e transitória…

Além do mais, eis um vício da medicina do Ocidente: olhar a pessoa por pedaços e querer tratar o “pedaço”, sem considerar o complexo físico/emocional/psíquico. Vício que vem de outro vício, de pegar uma ciência inteira, com toda uma filosofia por trás, como a medicina chinesa, o yoga ou a ayurveda, e transformar num manualzinho prático pra curar nossos achaques cotidianos, resolver tudo rapidinho e manter nosso modo de vida capitalista.

O excesso de simplificação coloca tudo na mesma categoria, fazendo esquecer que, às vezes, ficamos resfriados apenas porque saímos desagasalhados.

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