Onde foi parar o sentido de nossas vidas?

Nesses tempos que vivemos, nascimento e morte, alimentação, sexualidade e outras funções da existência humana perderam aquele caráter sagrado, que tiveram no passado. É que a relação do ser humano com o todo da vida, no mundo ocidental, mudou muito no decorrer da História.

Isso começa com o Renascimento e com sua visão humanista e racional das coisas, no século XVI. Foi um movimento cultural que tornou permitidos e populares, conceitos e valores que não faziam parte da mentalidade medieval, na qual prevaleciam o temor religioso e as superstições.

A mentalidade medieval, por sua vez, havia se fechado numa visão dogmática da doutrina cristã, que precisava ser rompida. Mas o rompimento, teve consequências: valorização da razão, desembocando no surgimento do método científico, que fez com que a Natureza deixasse de ser respeitada como expressão divina para ser um mero objeto de pesquisa, que se poderia questionar e investigar, para compreender como o mundo funcionava (e consequentemente explorar, para benefício próprio).

Em O Sagrado e o Profano, Mircea Eliade observa que essa relação com a vida e a Natureza, para o homem “primitivo”, era um modo de comunhão com a dimensão sagrada. Mas ao abandonar essa visão, começamos a observar as coisas apenas em termo de utilidade e de funcionalidade, a fim de dominar e controlar os processos.

Graças a isso, muitas das ideias e práticas que preenchiam nossa vida de sentido acabaram esvaziadas. O alimento, que pendia das árvores ou brotava do solo como bênção divina, hoje vem embalado, no supermercado, onde basta ter dinheiro para comprar. A facilidade das comidas semiprontas nos privou de conhecer o processo de transformação e preparo, desvinculando, ainda mais, nossas existências da ideia de respeito e cuidado com os nutrientes para o corpo.

O corpo, então, nem se fala! Virou alvo das mais diversas e estranhas químicas com objetivos puramente estéticos… muitas vezes, questionáveis. Corpo virou “coisa”.

E até a necessidade de conexão e transcendência, para muitas pessoas, tornou-se uma simples “viagem química”, frequentemente arriscada, pelo universo das drogas. Eventualmente, sem volta.

A ideia do “acaso” como responsável pelo surgimento da vida levou ao afrouxamento dos vínculos familiares. Transformou a sexualidade num meio de obtenção de prazer momentâneo e descartável, algumas vezes, rebaixado ao status de compulsão e desvio. A comunhão sexual deixou de unir seres, prevalecendo a visão do outro como objeto de satisfação pessoal.

Outros exemplos seriam possíveis. Mas o grande efeito dessa perda da compreensão mais profunda do Universo a que pertencemos, é que nos tornamos insensíveis, calculistas, individualistas, focados apenas nas nossas próprias necessidades e ambições, sem sequer ter ideia daquilo que foi perdido no processo e que nos faz falta.

Podemos, porém, refazer nosso movimento de conexão com a vida e percepção da dimensão espiritual presente em tudo. Penso que isso começa com alguma auto-observação. Afinal, como venho vivendo minha vida? Minhas escolhas me fazem bem? Há algo que deveria mudar?…

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