Nossos erros nos ensinam, mas não nos definem

O passado é uma poderosa realidade psicológica. Existe um significado importante para tudo pelo que passamos, nesta e noutras vidas. Em geral, parece que não temos como saber muito de nós mesmos, sem fazer referência àquilo que fomos e ao que aconteceu conosco.

Isso está me lembrando um filme chamado A Máquina (2015), que conta a história de uma robô com relances de memórias que começam a ter consequências no seu presente. Afinal, ela entra em contato com sua história e tem emoções despertadas pelo que viveu, as quais interferem nas suas escolhas e atitudes atuais. Mas não é só isso: assistindo, a gente praticamente se convence de que Kelly não é apenas uma máquina, mas que é “alguém”.

Todos podemos ter vivido coisas ruins que passaram, sem deixar marcas. Elas não têm registros negativos, porque as emoções foram devidamente liberadas. Outras vivências, contudo, foram traumáticas e influenciam nossa forma de agir no presente.

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Muitas dessas vivências são recordadas conscientemente, enquanto algumas, ignoradas, persistem no inconsciente e surgem como preconceitos que não sabemos de onde nasceram, medos cuja causa não é racional ou conhecida. Mas que condicionam ou até determinam as decisões atuais.

O passado tem sua função. É preciso aceitá-lo. É preciso entendê-lo, para poder pensar sobre ele com liberdade. Contudo, ele não pode nos prender em teias que nos impedem de avançar para o melhor que podemos ser e fazer, o que comumente acontece com qualquer um de nós.

Podemos ter hoje conhecimentos novos convivendo com atitudes que contradizem uma visão espiritual da vida – medos, ideias de apego, de vingança, de mesquinhez, de pânico diante de certas escolhas – atitudes estas que surgiram perante situações passadas, como respostas ou defesas que pareceram adequadas naquele momento. Mas se não nos conscientizamos disso, nosso modo de agir permanece atrelado à forma como nos trataram e como receberam nossas dádivas. Repetimos reações que já não combinam com uma nova maneira de encarar a vida, que estamos aprendendo.

Alejandro Jodorowsky, cineasta, poeta e psicólogo chileno, resume essa influência nas seguintes frases: “O passado é sua estrutura espiritual, não sua identidade. Respeite-o sem se amarrar a ele, continue crescendo em direção ao futuro”.

Vivenciamos inúmeros papéis, tanto nesta, quanto noutras existências. Mas sempre que nos vemos num desses papéis novamente, podemos reviver emoções e perder a perspectiva mais profunda, espiritual, contextualizada daquele momento específico no todo da nossa história, de nossas vidas e de nossos relacionamentos.

Se hoje algumas condutas parecem erradas perante a visão ou, mesmo, a ética que desenvolvemos, provavelmente não tínhamos esta mesma compreensão, no passado. Por isso, talvez a melhor forma de contemplar o passado seja em estado meditativo, como observadores de uma história que nos pertence, mas não nos abala nem desequilibra. Com coragem e compaixão perante nós mesmos, assumindo plenamente que somos seres em constante transformação.

 

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