A tristeza de ver um adolescente e um jovem se tornarem assassinos e suicidas invadiu nosso dia de ontem. O choque de ver funcionários e alunos assassinados, num local que deveria ser acolhedor e seguro para os alunos, faz-se difícil de superar.

Aquela dor, aquelas cenas terríveis do chamado “massacre”, tiveram lugar na Escola Estadual Professor Raul Brasil, no município de Suzano, em São Paulo, porém, não começaram na escola.

Elas não expõem simplesmente os efeitos de uma dor emocional não curada.

E também não têm a ver com o debate acerca das mudanças na lei sobre a posse e o porte de arma.

Quanto à violência dos videogames, num cenário de ficção, será que ela afeta os jovens de maneira real? Sim. A violência presente no cotidiano, nas telas que nos cercam – TVs, celulares, computadores – mexe com nossos estados emocionais e pesam sobre nós. Mas ela também, por si só, não justifica a expansão do ódio e da insanidade, a frieza com que se descartam vidas.

E a pobreza, igualmente, não serve de justificativa. Como disse a mãe do jovem Guilherme ao desastrado e inconveniente repórter da Band, “ele tinha internet, TV a cabo, tinha tudo”.

A escola não é a responsável pelos atos infelizes, agressões a professores, desafios absurdos à autoridade e ao sistema, feitos pelos alunos. A escola é apenas o ambiente perpassado por agressividade mal administrada, problemas socioeconômicos, por balas perdidas ou propositalmente disparadas no seu interior.

E entendo que seja difícil perceber isso hoje, com tudo ainda tão recente… mas os atiradores também foram vítimas.

Então, onde buscar, em escala social, as causas dessa agressividade desmedida? Com toda certeza, no afrouxamento dos laços familiares. No despreparo dos pais, que talvez pariram jovens demais, pais que não estudaram ou que abandonaram a escola por necessidade (ou por motivo nenhum). Mas há também os pais negligentes que ignoram os efeitos terríveis de sua negligência e que andam ocupados demais, trabalhando ou só olhando o celular, e desse modo não conseguem exercer sua função na vida dos filhos.

Pais que confundem carinho com coisas, que compensam sua culpa através de concessões. Que frequentemente reclamam quando a escola adota medidas disciplinares e tomam as dores dos filhos, brigam com os professores chegando até a agredi-los.

Não comecei a tratar disso ontem, mas desde que estudo, que escrevo livros e faço palestras sobre família e educação, ou seja, há quase 25 anos!

Este é um trecho do livro Famílias Espiritualmente Inteligentes, palavras escritas há tanto tempo que nem me lembro, para que os pais reflitam sobre sua importância crucial e insubstituível perante os deveres da paternidade e da maternidade:

Desde bebês, os filhos são observadores atentos dos pais. Quando crescem, lembram-se de coisas que fizemos, das quais nós mesmos nos esquecemos. Se passamos tempo de qualidade com eles, se oferecemos atenção sincera e carinho, se saímos a passear e fazemos coisas juntos, tudo isso permanecerá com eles para sempre, e essa é nossa maior herança. E também o modo como encarávamos a família e a vida profissional, o jeito como tratávamos as pessoas, nossa relação com os estudos e a leitura, nossa atitude perante a Natureza e as pessoas que nos procuravam precisando de ajuda. Imaginamos que herança é dinheiro, bens materiais, o que é compreensível. (…) A verdadeira herança que deixamos para nossos filhos, de bens imortais e incorruptíveis, é aquilo que somos. Vai estar sempre em suas memórias, em seus gestos, em suas atitudes.

Vamos mudar esse dramático rumo dos acontecimentos. Vamos começar agora a recompor nossas relações com nossos filhos e com aquelas crianças para quem representamos a figura paterna ou materna. E só quando os pais derem as mãos aos professores, nós poderemos pensar em transformar essa cruel realidade de nossas escolas.

Publicado por ritafoelker

Palestrante, filósofa e jornalista. Escritora reconhecida nos temas: espiritualidade, inteligência emocional e educação, publica livros desde 1992. Faz palestras no Brasil e no exterior, realizando sua formação com Roberto Shinyashiki / Instituto Gente.

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12 comentários

  1. Minha querida quanto tempo realmente falamos sobre ausência dos pais do lar. Nos primórdios foi a substituição pela babá televisão.
    Quantas ilusões se desenvolveu na mente de tantas crianças, jovens e adultos hoje brincando de faz de conta !
    Continuemos nas pegadas do mestre semeando estímulos para a viagem de retorno dos pais no coração dos pequeninos.
    Um abraço quentinho.
    Gratidão 💛

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    1. Alcione, nós já percebíamos as mudanças e alertamos. Mas agora precisamos usar esses canais disponíveis e atingir mais pais e famílias, promover discussões e mudanças profundas. Estou muito focada nisso.

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  2. Olá Rita!
    Quanta reflexão!
    Estamos na era da tecnologia mas estamos nos perdendo nos valores.
    Falta de amor, falta de DEUS, empatia….
    Muito triste isso que aconteceu na escola..
    Devemos rever nossas atitudes.
    Diz que Não cai uma folha de uma árvore sem a permissão de DEUS. Tudo é aprendizado, precisamos rever nossas atitudes…
    Que a LUZ Divina nos ilumine e nos auxilie a enxergar que só o AMOR é o caminho!
    Gratidão Rita por compartilhar seus textos e ensinamentos!

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  3. Boa noite é o Mario tudo bem com todos eu sei que é muito ipaquitanti essa situação mas devemos ter mais fé e tentar passar esperança que um dia sera melhor do que o outro para nossos filhos e socorrer no sós filhos que estão si perdendo nas ruas e em casa vamos ficar mais a tentos com o que acontece em nossa volta e que Jesus Cristo esteja com todos nós

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  4. D. Rita, bom dia.
    Farei a divulgação através dos grupos do Whatsapp que participo. Para não deixar passar em branco quero lhe dizer que isso que disse são de extrema necessidade e urgente.
    Saudações fraternas.

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  5. Trabalho na educação faz 38 anos e infelizmente estamos vivenciando a terceirização do afeto, amor, carinho, limites, enfim… Terceirização dos valores que deveriam ser desenvolvidos no seio famíliar.
    O reflexo triste da resistência às normas e dificuldade de conviver com o outro no âmbito escolar é em muitos casos, aplaudido pelos pais que colocam o filho como vítima de um ambiente onde regras construídas no coletivo precisam ser seguidas por todos!
    Nossa sociedade precisa acordar, as famílias necessitam retomar seu papel na educação dos filhos.

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