Pooh é o meu personagem preferido desde longo tempo. Nem sei desde quando. Há décadas compreendi que A. A. Milne (1882-1956) era um escritor fantástico, comparável a C. S. Lewis (1898-1963) em criar um universo fascinante, independente e próprio, com a diferença de que ele retrata as incontáveis aventuras da infância e dos sentimentos. Essa semana, assistindo a Christopher Robin, um Reencontro Inesquecível (2018) na TV, ele me fez refletir novamente, como todas as grandes histórias.

Pooh é um filósofo em sua inocência. Bisonho, Ió, Tigrão e os demais não são brinquedos, são jeitos de ser e de ver a vida. Há um aprendizado específico de emoções em cada um.

Desta vez, ao assistir, estava refletindo sobre posse e perda. O que temos de verdade e o que é apenas uma sensação de ter. E como isso molda nossas ideias de posse e ganho, de perda e perder.

O adulto Christopher tem uma família, tem um bom emprego e não se lembra mais do que perdeu no percurso, porque vive como quem não teve infância e por isso mesmo, apenas sobrevive para conservar o que conquistou com seu empenho e trabalho honesto.

No entanto, essas conquistas cobraram dele um alto preço: brincar, rir, tempo com a família, alegria, amizades, leveza interna. (Ele não entendeu nada disso como perda, mas exatamente como o preço a ser pago por haver crescido e assumido responsabilidades…)

Christopher fica assustado com os problemas da empresa. Contudo, ao não conseguir conviver com Evelyn, a esposa, nem acompanhar o processo de crescimento da filha Madeline – nada disso o assusta.

Em nossas vidas cotidianas, algumas coisas nos dão nítida sensação de posse. Uma escritura representa que temos uma casa. Uma certidão, de que temos um cônjuge. Dinheiro guardado e limite de cartão de crédito, a sensação de que dispomos de numerário para gastar com o que quisermos. E chamamos a isso, também, de “importância”. Importância em dinheiro…

No entanto, mesmo aquilo de que temos escritura ou certidão é apenas temporário. Não ficará conosco e não levaremos para além desta existência. Apesar disso, jogamos fora a convivência, os passeios, a leitura, quando isso é o que realmente aquece o coração e de fato pertence a nós, de forma indelével. Se faço uma caminhada na praia, aquele momento, aquela sensação e aqueles pensamentos são somente meus, de modo que pertencem e não são perdidos.

Imagem de Geekness.com.br

Se cultivo uma amizade, ela existe no meu coração e no coração do amigo ou amiga. Isso é o que Pooh continua nos ensinando, mesmo com seu “cérebro pequeno”. Porque o seu coração nem tem tamanho, de tão grande que é.

Isso, igualmente, é o que faz querer não apenas ter seus livros, mas o prazer da leitura, o conhecimento e a emoção que eles encerram. Não apenas tê-los na estante por uma sensação passageira e instável de posse, mas para os netos e outras crianças terem oportunidade de ler e recolherem seus tesouros em seus corações! Pois só quando algo participa de nosso mundo interno, é realmente nosso!

Pooh não é menor que Frodo Bolseiro. Pooh não é só um ursinho. Ele é um verdadeiro mestre da amizade e dos sentimentos.

Publicado por ritafoelker

Filósofa, palestrante e jornalista. Escritora reconhecida nos temas: espiritualidade, inteligência emocional e educação, publica livros desde 1992. Faz palestras no Brasil e no exterior. Formação em Pedagogia Sistêmica com a Educação, pelo Instituto Hellen Vieira da Fonseca.

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