Não é a primeira vez, nem será a última, que estamos diante de um vírus que se espalha e EFETIVAMENTE coloca vidas em risco. A peste negra, a gripe espanhola, a gripe aviária, H1N1…

Mas é diferente para nós, porque somos nós que estamos perante o desafio, dotados de corpo físico que está mais ou menos apto a se proteger da infecção.

A consciência da importância realmente chega com as mudanças na rotina, aquelas que de fato nos convencem de que alguma coisa muito séria acontece e de que precisamos agir positivamente, em favor de todos.

Somos convidados a ver que não estamos isolados. Que tudo o que fazemos afeta o outro e o que outro faz nos afeta. Quem está no trem ou ônibus pode carregar seu álcool-gel, mas não pode impedir que o outro respire e espalhe vírus ao seu redor.

Como agimos conforme nossos pensamentos, o que pensamos afeta a todos. Como temos um senso moral, as nossas escolhas nos afetam e afetam todos.

No século XVII, o pastor e poeta inglês John Donne (1572-1631), famoso e incompreendido em sua época, escreveu, num sermão chamado Meditação 17 (1764), um famoso trecho que começa dizendo: “Nenhum homem é uma ilha” e que foi traduzido assim:

Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é um
pedaço do continente, uma parte da terra; se um torrão
é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída,
c o m o s e f o s s e u m p r o m o n t ó r i o,
como se fosse a casa dos teus amigos ou
a tua própria; a morte de qualquer
homem diminui-me, porque sou
parte do gênero humano.
E por isso não perguntes
por quem os sinos
dobram; eles
d o b r a m
por ti.

A diagramação atual, em forma triangular, foi que o transformou num poema concreto. Ela surge na abertura do romance de Ernest Hemingway, que nele se inspirou para o título de um de seus romances mais conhecidos: Por quem os sinos dobram, publicado em 1940. Traduzido para o português por Monteiro Lobato e considerado um de seus melhores textos, ele remete à experiência do autor como voluntário na Guerra Civil Espanhola.

Em 1943, um filme com o mesmo título foi lançado, tendo Gary Cooper e Ingrid Bergman como protagonistas. No filme, inspirado no livro um americano vai até a Espanha para lutar contra a ditadura. Embora sua missão fosse explodir uma ponte, ele se apaixona por uma militante espanhola e isso muda sua visão de tudo que está acontecendo.

Os versos do poema se também abrem o vídeo oficial da canção da banda Metallica, para a faixa For Whom The Bell Tolls, do álbum Ride The Lightening (1984), que foi inspirada no texto do romance e traz cenas do filme! Por quem os sinos dobram é também o título do nono LP de Raul Seixas e desta faixa:

Mas não é só doença e peste que nós espalhamos. Também espalhamos consciência, paciência, gentileza e cuidado, com nossas ações. Podemos rever nossos hábitos e verificar quem, perto de nós, corre mais risco de contaminação e fazer nosso possível. Evitar que um idoso se exponha, comparecendo a lugares de grande aglomeração.

Isso é sobre experimentar e exercitar nossa humanidade.

Não é sobre entrar em pânico, nem sobre apavorar os outros. Não é sobre especular em cima do preço do álcool-gel, atendendo à fria lei da oferta e procura que só visa um ganho monetário numa situação que, tristemente, incide sobre nos todos. É sobre adquirir a consciência de que não estamos tão ‘no controle’ quanto imaginamos e reconfigurar nossas agendas e prioridades.

É sobre descobrir o que pode se espalhar de bom, já que as ações de cada um podem atingir todos. É sobre viralizar amor e gentileza. Sobre ativar a ética do cuidado, além dos limites da casa e dos mais próximos.

Estamos sendo convidados a perceber que, onde quer que estejamos no planeta, ESTAMOS E SOMOS MAIS PRÓXIMOS DO QUE IMAGINAMOS.

Enfim: “Coragem, coragem, se o que você quer é aquilo que pensa e faz. Coragem, coragem, que eu sei que você pode mais.” (Raul Seixas) É isso que o Universo está nos dizendo e pedindo que acreditemos.

Imagem do post: https://www.google.com/url?sa=i&url=https%3A%2F%2Fwww.bbc.com%2Fnews%2Fworld-51839944&psig=AOvVaw3tZaHsVvKx7rH4pTXh60uc&ust=1584451261653000&source=images&cd=vfe&ved=0CAIQjRxqFwoTCPDQkZyLn-gCFQAAAAAdAAAAABAD

Publicado por ritafoelker

Filósofa, palestrante e jornalista. Escritora reconhecida nos temas: espiritualidade, inteligência emocional e educação, publica livros desde 1992. Faz palestras no Brasil e no exterior. Formação em Pedagogia Sistêmica com a Educação, pelo Instituto Hellen Vieira da Fonseca.

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