Ouvi/li várias coisas sobre Dark, a série de ficção, recentemente.

Boa parte era reclamação.

No entanto, ela é também considerada a melhor série da Netflix e minha tendência é concordar com isso. Por quê?

Porque ela conta uma excelente história complexa, de um jeito extraordinário. E chega a um desfecho simples e brilhante.

A narrativa é não-linear e aí começa o problema. Ao passar de um a outro cenário, ela nos diz para que ano ou data está nos levando. Mas isso não diminui a frustrante sensação de estar perdido. Porque vemos personagens e não entendemos de imediato suas ações e comportamentos, e nem onde tudo se conecta.

Precisamos ir montando o quebra-cabeça, no entanto, as peças chegam aos poucos e pertencem a setores distintos da figura que se quer completar.

Esse mal estar, penso eu, essa frustração não é “culpa” do filme. Ela nasce em nós. De um hábito mental. De nossa ansiedade em perceber conexões, em criar esquemas mentais com lógica, sequência temporal… Ou, ao menos, que façam sentido imediatamente e acalmem nossa necessidade de explicação para tudo.

Além disso, a vida moderna nos deixa ávidos por respostas prontas e satisfatórias, pelo alívio de entender para poder prever. Isso decorre da sensação de insegurança generalizada na sociedade, agravada frente aos acontecimentos recentes pelo planeta, em que sentimos que precisamos nos antecipar para nos resguardar de eventos mais graves à frente.

E também nossa habitual falta de tempo nos impõe saber e resolver tudo de forma rápida e efetiva. Precisamos da tranquilidade de uma solução fácil e garantida. Em geral estamos dispostos a pagar por ela. O que Dark não nos oferece.

Mas eu não posso fugir da pergunta: serão nossos desafios presentes assim tão rasos e solúveis com as respostas que já temos?

Ao mesmo tempo, Dark mistura questões familiares com resíduos radioativos, drogas na escola com sexo e relacionamentos, visões filosóficas com religião, capitalismo com preservação do planeta, tudo isso em contextos que convidam a pensar, porque a narrativa insiste em ser inquietante. Então, entra aí um segundo aspecto: nossa capacidade de foco versus estímulos à dispersão. Se você não colocar forte atenção na história, não vai juntar as peças, vai achá-la entediante e mal alinhavada. Pode ser mais tranquilo, para você, jogar um joguinho de celular, que captura seu cérebro no padrão de sincronizar movimentos na tela com cliques.

Então também cabe perguntar: como anda sua capacidade de atenção e concentração perante a essa tecnologia digital que está sempre puxando você para fora e para outro lugar, outra demanda, outra notícia…?

O mundo não é mais uma série de episódios de Daniel Boone – por mais que eu aprecie. Já passamos por Babel (longa de 2006), onde os acontecimentos em espaços distintos eram contemporâneos, afetavam uns aos outros independente de localização e idioma. Desde Isaac Asimov, ficção científica e futuro real são conceitos muito próximos, merecem atenção filosófica e reflexão.

Mas na melhor ficção, o ponto alto é a nossa humanidade. Os nossos conflitos, os nossos desvios de rota, a nossa precariedade que só se soluciona pela visão ética e humana elevada, pela decisão de agir e ser melhor.

Publicado por ritafoelker

Filósofa, palestrante e jornalista. Escritora reconhecida nos temas: espiritualidade, inteligência emocional e educação, publica livros desde 1992. Faz palestras no Brasil e no exterior. Formação em Pedagogia Sistêmica com a Educação, pelo Instituto Hellen Vieira da Fonseca.

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