Sobre a importância de aprender e compreender as palavras

Quando eu digo a palavra ‘cadeira’, uma imagem vem à sua mente. É praticamente impossível que a sua imagem de cadeira seja igual à minha, exceto se nós tivermos crescido num lugar isolado, no mesmo meio, onde só se fabrica um tipo de cadeira, e estejamos marcados pelas mesmas impressões associadas ao conceito de cadeira. Se for assim, falar de cadeira a você não lhe acrescentará nada, além do que você já conhece.

Mas isso praticamente nunca ocorre, na vida real.

Numa situação diferente dessa, então eu poderia descrever a minha cadeira: feita de madeira, pintada de amarelo, com quatro pés torneados. O encosto tem quatro partes torneadas, fixadas em outro pedaço curvo, na parte superior. E você talvez explicasse: “A minha cadeira é totalmente diferente. Tem uma base de metal com braços, é estofada e forrada de tecido azul. Gira sobre os seus cinco pés de apoio, que terminam em rodízios para ser movimentada facilmente.” Nesse caso, ambos seríamos enriquecidos em nosso entendimento acerca de cadeiras.

Agora… Se fôssemos cinco pessoas fazendo isso, cada um de nós quintuplicaria sua noção inicial de cadeira. As palavras têm esse potencial oculto: expandir nosso universo.

De modo geral, nós teríamos um consenso sobre os componentes básicos e a função de qualquer cadeira, que é nos permitir sentar para comer ou trabalhar ou descansar. Isso nos ajuda imensamente a nos entendermos quando, eu digo: “Pegue uma cadeira e sente-se”. Uma vantagem prática.

Mas noutro cenário, se, num exercício de imaginação, nós cinco passarmos a listar todas as funções de uma cadeira no dia a dia… quantas possibilidades!

DO CONCRETO AO ABSTRATO

Por se tratar de um objeto concreto, visível, que a maioria dos seres na nossa cultura já viu inúmeras vezes, essa comunicação não apresentaria qualquer dificuldade. Mas no dia em que eu simplesmente contar a você como é a minha cadeira e você me contar como é a sua, ambos teremos enriquecido nossos pensamentos, compreensões e possibilidades.

Agora imagine que não se trata de uma cadeira. É uma saudade. É uma alegria. É um arrependimento. É um encontro. É uma viagem. É uma lembrança… Quero lhe contar sobre isso! Se eu escrever em forma de conto, crônica ou poema, quando chegar ao final, você terá vivenciado uma parcela maior ou menor do que escrevi, dependendo da intensidade, do impacto que minha narrativa gere dentro de você.

Mas, antes de tudo isso acontecer, há um requisito fundamental. É necessária a compreensão das palavras que usei. Se você não compreendê-las, se forem grafadas num idioma desconhecido ou se não for capaz de ler os símbolos que as representam, eu não terei dito nada a você. Minha emoção, minha lembrança, minha revelação não existirão no seu universo.

Toda palavra se refere a um objeto, sentimento, situação que se quer comunicar. Palavras que não compreendo eventualmente, como ‘íngreme” ou “haicai”, não me dizem nada, geram indiferença. Pois só vou amar as palavras se puder penetrar seus significados, caso contrário elas não passarão de cofres fechados cujo segredo foi perdido.

SÓCRATES E AS PALAVRAS

Às vezes, palavras são ditas mecanicamente, por simples repetição e modismo, o que explica a disseminação de certos abantesmas linguísticos como “top” e “topíssimo”. Quem fala não está tão interessado na precisão do sentido, quanto em se integrar a um grupo por meio do compartilhamento de termos comuns como “arraso”, “crush”, “lacração” e outros. Essas palavras são piscinas rasas, não tente mergulhar fundo nelas.

O respeito, que as palavras merecem, ganha um novo sentido quando nos lembramos de Sócrates (~470-399 a.C.) que percebeu e demonstrou, por meio de diálogos, que as palavras têm um significado que o falante geralmente desconhece. Ele então usava uma técnica (maieutike) que envolvia muitas perguntas destinadas a conduzir o falante a pensar profundamente sobre o seu verdadeiro significado, porque geravam raciocínios e todo um processo de pensamentos que engendrava não apenas entendimento, mas exercício intelectual e aprendizado.

No entanto, a vida traz mais que significados latos. Traz metáforas, ironias, hipérboles, vírgulas, reticências… e pontos de exclamação!

NO COTIDIANO

Embora hoje esteja muito fácil interagir e produzir posts sem um mínimo domínio da linguagem e pontuação. Parece que desprezar as regras da boa escrita se torna regra, enquanto empobrece nossas trocas e nossa interação social. Hoje temos emojis. A mais ínfima parcela de atenção que um comentário pode receber, enquanto não preciso pensar no que escrever.

O fato é que as conversas vão ficando cada vez mais pobres. Não tenho o que dizer, mas mostro minha 6unda ou nova maquiagem. Não tenho o que dizer, mas escandalizo ou provoco risadas distribuindo palavrões, notícias presumidamente verdadeiras ou escancaradamente falsas e ‘memes’.

Mas… é só isso mesmo que conseguimos, com todo desenvolvimento alcançado com nossa civilização?

***

Seria, porém, impróprio (não “inapropriado”) dizer que ninguém está preocupado com as palavras, especialmente nesses dias em que se usa linguagem para manipular e condicionar. Embora a Neurolinguística reúna um conhecimento altamente respeitável, aqui embaixo, quem a usa geralmente não está preocupado com sentido e propósito, mas em vender, recrutar ou alienar. São os produtores de anúncios e de propaganda de aparência inofensiva com seus gatilhos mentais para impor respostas cerebrais robóticas que não criam felicidade, só condicionamentos e repetição.

Do outro lado as substituições de termos desagradáveis por eufemismos parecem nos proteger da frustração e da iminência do fim, quando “descontinuar”, por exemplo, aparenta ser menos grave que acabar, findar, deixar de existir. Talvez seja mais fácil engolir assim, quando seu relacionamento for descontinuado, sua liberdade for descontinuada, sua paz for descontinuada, sua vida for descontinuada…

Enquanto continua, a vida vai perdendo profundidade. O cotidiano vai ficando plano e imediato. Clicar e curtir. Clicar e comprar. Fazer selfie e postar. Compartilhar canções tolas que se agarram às suas células cerebrais como parasitas.

Como minorar e reverter esse estrago? Numa palavra: Leitura.

Quando se é privado da capacidade de leitura – ou, pior que isso, quando a desprezamos, ou quando a leitura não faz sentido – nós nos desinteressamos dela. Com o tempo, o senso de exclusão do “mundo letrado” e o complexo de inferioridade que ele nutre em nós, pode-se passar até a detestar e desprezar as belas palavras como inutilidades para sempre.

Então, como dizem no F4ce, só passei pra lembrar que aprender a ler é o caminho para aprender a pensar e desenvolver a mente. Para argumentar e entender os argumentos que lançam sobre nós. O pensamento se estrutura com palavras e mingua, sem elas. Bons textos e leitura, eis o caminho, a fuga da armadilha e, também, a esperança de tempo e vida mais livres e satisfatórios.

Imagens: Van Gogh, Cadeira com cachimbo (1888); Jan A. Kruseman, Regentes do asilo dos leprosos, (1834-35); Matisse, A cadeira com pêssegos, (1919); Foto de Pixabay, por Erika Wittlieb

Publicado por ritafoelker

Filósofa, palestrante e jornalista. Escritora reconhecida nos temas: espiritualidade, inteligência emocional e educação, publica livros desde 1992. Faz palestras no Brasil e no exterior. Formação em Pedagogia Sistêmica com a Educação, pelo Instituto Hellen Vieira da Fonseca.

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4 comentários

  1. Bom dia, Rita.

    Recebi, li e parei para comentar. Excelentes assuntos e reflexões. Lembram-me das aulas de Teoria da Imagem quando ainda lecionava, em que as palavras e as imagens desempenham um papel de complementaridade em que uma precisa da outra, embora as palavras possam fazer sentido sem as imagens ao lado, enquanto que as imagens não podem ser compreendidas sem as palavras, daí o equívoco das expressões como “uma imagem vale mais que mil palavras”. Os seus argumentos são claros e expressivos, reveladores de uma condição presente no nosso contexto contemporâneo, que repete inúmeras situações já antigas. Fazem-me lembrar, por exemplo, que as palavras são geradas por um consenso, o que explica porque chamamos o objeto de cadeira e não de jacaré, assim como chamamos o animal de jacaré e não de cadeira. Tivéssemos invertido a situação e hoje ninguém se espantaria de chamarmos a cadeira de jacaré e vice-versa, não é? As questões de significado e significações são de fundamental importância, como você relembra. Imagino como isso não seria importante para levar às casas espíritas, no momento em que a USE-SP divulga o seu congresso para o próximo ano, com repetição de temas e palestrantes e nenhuma abertura para estudos e trabalhos espontâneos como este seu. Por isso, Herculano continua atual, no indiscutível argumento de que o futuro do espiritismo repousa nas mãos das lideranças espíritas, as mesmas que demonstram desconhecer isso e se fazem fontes de eventos sem profundidade e até mesmo aderência às verdadeiras competências de seu público alvo.

    Grande abraço, amiga.

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    1. Querido Wilson, senti grande satisfação em ler seu comentário. Agradeço por suas palavras. O problema é sério e se agrava com o tempo. Embora nos meios espíritas ainda se valorizem os livros e a leitura, estamos perdendo o contato com o sentido original dos textos e prejudicando nosso entendimento dos princípios e consequências da Doutrina Espírita. Abraço, amigo!

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  2. O seu artigo é excelente e esclarecedor, Rita.

    Ele expõe um dos problemas mais nocivos dessa modernidade ainda tão enigmática que nos deixa atônitos e a perguntar até onde nos levará essa ideologia nefasta do globalismo que tenta transformar a humanidade num amontoado de seres autômatos, verdadeiras máquinas para serem exploradas em benefício daqueles que comandam esse processo nefasto.

    Para atingir tal desiderato vale tudo, mas especialmente a banalização das conquistas culturais que a humanidade amealhou ao longo dos milênios e a custa de muito sacrifício.

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    1. A hora é grave, Amigo. A generalização vai engolindo tudo, transformando pessoas em força de trabalho e em consumidores… Bom saber que somos Espíritos imortais e que podemos retornar e refazer caminhos. Abraços a você e Márcia!

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